sucesso escolar

Bizantinices (José Pacheco)

Insisti, porque desejava saber a razão pela qual o Daniel não queria escrever tal frase. Respondeu: “Não escrevo palhaços porque a professora ainda não deu o lh aos meninos!”

Diz-nos a OCDE que os professores gastam 13% do tempo lectivo a manter a ordem na sala de aula. O estudo da OCDE recomenda às autoridades educativas que abandonem as políticas burocráticas. E abandonam?…

Há muitos anos atrás, aquando da dita reforma curricular portuguesa, um dos pontos fortes do debate era “o tempo de duração de uma aula”. E, no decurso de um congresso, alguém perguntou se eu estava de acordo com a carga horária em vigor. Respondi que “carga” era coisa de jegue, com o devido respeito pelo colega e pelo jegue, mas o colega voltou à carga. Perguntou-me se aprovava a alteração do tempo de aula de cinquenta para noventa minutos. Respondi, perguntando: Cinquenta minutos ou noventa minutos para qual aluno?

Ficou arrumada a questão, ainda que eu acrescentasse (e ele já não escutasse) que, há cerca de cem anos, alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que o “aluno médio” teria, “em média”, uma capacidade de atenção seguida de cerca de cinquenta minutos. Que não é por acaso que as aulas duram, “em média”, esse tempo. Mas que “pesquisas” recentes dizem-nos que as crianças do século XXI têm uma capacidade de concentração “média” de cerca de seis minutos. Finalizei, afirmando que a duração da aula é uma falsa questão. O problema consiste em ainda haver aula, seja de cinquenta, seja de noventa minutos. Expliquei que teríamos de ultrapassar um discurso semeado de abstracções (aluno médio, carga horária, etc) para falar do jovem e do aluno concreto. Mas o debate acabou ali, fez-se silêncio, porque aquilo que é óbvio não carece de explicação.

Portugal e Brasil são países irmãos também nos absurdos. Em Portugal, a lei estabelece a idade de matrícula; no Brasil estabelece a “idade de aprender a ler” e a “idade de corte”. Li num jornal: “A experiência afirma que o melhor período para aprender a ler é entre os 5 anos e oito meses e os 8 anos”. E num outro jornal: “O governo federal pretende unificar em seis anos a idade em que os estudantes brasileiros começam a ser alfabetizados. A partir de 2010, nenhum aluno poderá ser matriculado, se não tiver completado seis anos até Fevereiro. Se fizer o seu aniversário, nem que seja um dia após o limite estabelecido, terá de continuar a educação infantil”.

O azar é daquele que nasce entre o “dia derradeiro” e o dia seguinte… Alguns estados aceitam matrículas de crianças que perfaçam seis anos até 31 de Dezembro. Outros estabeleceram o critério do sexto aniversário até 30 de Junho. Disposições legais fixaram o limite em 30 de Março… Alguém saberá dizer porquê? Nem eu!

Quanto tempo se perde em questões bizantinas?! Já não se crê que seja possível deslindar o sexo dos anjos, mas insiste-se em determinar “a idade para aprender a ler” ou “a idade para ingressar no primeiro ano”.

Quando foi matriculado no primeiro ano, o Daniel já sabia ler. Quando o visitei estava a fazer os trabalhos de casa: escrever uma frase sobre a ida ao circo. O Daniel já sabia ler, mas estava atrapalhado. Perguntei porquê. Disse: “Eu quero escrever que gostei de ver os palhaços.” Insisti, porque desejava saber a razão pela qual o Daniel não queria escrever tal frase. Respondeu: “Não escrevo palhaços porque a professora ainda não deu o lh aos meninos!”

Culpa do Daniel, que aprende mais rapidamente do que o ritmo das aulas da sua professora. Culpa do Daniel, porque não cumpre o calendário estabelecido para aprender a ler…

José Pacheco In Educare

“50 Anos de Estatísticas da Educação (ensino não-superior)”

Fonte: Ministério da Educação

A publicação “50 Anos de Estatísticas da Educação” apresenta um conjunto de indicadores estatísticos demonstrativos da evolução do sistema educativo: taxa real de escolarização, número de alunos matriculados, número de professores, de educadores de infância e de estabelecimentos de ensino.

As séries estatísticas relativas aos últimos 50 anos, cuja compilação foi da responsabilidade do Gabinete de Estatísticas e Planeamento da Educação (GEPE), do Ministério da Educação, constituem um importante instrumento para o estudo da evolução da procura e da oferta do sistema de educação em Portugal em décadas muito significativas para a história do país.

Alguns resultados:

  • A generalização do acesso à escola foi, seguramente, o factor mais relevante no período em análise, conforme decorre do conjunto da informação estatística agora disponibilizado: entre o ano lectivo de 1960/1961 e o ano lectivo de 2007/2008, a procura do sistema educativo registou um aumento global superior a 700 000 alunos.
  • O número de matrículas nos vários níveis de ensino apresentou evoluções diferenciadas e não homogéneas ao longo do tempo, com especial destaque para o ensino básico que, em 2006/2007, conseguiu inverter a tendência de decréscimo que se vinha a verificar desde 1982/1983.

Gráfico - Alunos matriculados, segundo o nível de educação/ensino, por ano lectivo (n.º) (Volume II, quadro A.0.1.0.0)

Alunos matriculados, segundo o nível de educação/ensino, por ano lectivo (n.º) (Volume II, quadro A.0.1.0.0)

Há cada vez menos alunos a desistir da escola e as taxas de retenção apresentam uma curva descendente na última década. A taxa de retenção e desistência no ensino básico baixou de 13,8%, em 1995/1996 para 7,9% em 2007/2008.

Gráfico - Taxa de retenção e desistência, por ano lectivo (%) (Volume I, quadro 8.1.0.0)

Taxa de retenção e desistência, por ano lectivo (%) (Volume I, quadro 8.1.0.0)

De realçar ainda o sucesso na igualdade de género no acesso à escola. As alunas representavam 52,7% do total de alunos do ensino secundário, quando em 1960/1961 representavam apenas 37,2%.

Gráfico - Taxa de feminidade no ensino secundário, por ano lectivo (%º) (Volume I, quadro 5.1.0)

Taxa de feminidade no ensino secundário, por ano lectivo (%º) (Volume I, quadro 5.1.0)

A publicação “50 Anos de Estatísticas da Educação” é apresentada em três volumes e inclui uma apresentação genérica sobre a evolução da produção estatística sobre Educação, em Portugal, e sobre a organização do sistema de ensino.

Os dados são apresentados em tabelas com taxas e indicadores e a publicação em papel é acompanhada de um CD com ficheiros Excel, de modo a uma mais fácil utilização da informação estatística por parte dos interessados.

A publicação “50 Anos de Estatísticas da Educação” pode ser obtida também em formato PDF nas páginas electrónicas das duas entidades responsáveis pela sua elaboração: INE GEPE .

Para mais informações, consultar:

  • 50 Anos de Estatísticas da Educação:
    Volume I [PDF] Volume II [PDF] Volume III [PDF]

PISA: Movimentos e mudanças. Uma introdução a “PISA e as políticas públicas de educação”

Este dossier inclui contribuições do projecto de investigação – “O papel do conhecimento na construção e na regulação das políticas da saúde e da educação na Europa” (KNOWandPOL) – desenvolvido com o objectivo de alargar o conhecimento existente sobre a relação conhecimento-política, num contexto social e cultural caracterizado por um aumento do volume, da pluralidade e da circulação dos conhecimentos na acção pública (AA.VV, 2006; Delvaux & Mangez, 2008)(1). Um dos eixos analíticos do projecto trata das questões da produção, difusão e apropriação dos instrumentos de regulação baseados no conhecimento (KRT – Knowledge-based Regulation Tools), isto é, dos instrumentos técnico-sociais que difundem um tipo particular de conhecimento com vista à modelação do comportamento dos actores num dado sector das políticas (Freeman et al., 2007). De entre as diferentes versões de KRTs – dos dispositivos de auditoria aos de auto-avaliação, dos projectos de boas práticas aos de acreditação, dos programas de formação aos referenciais, aos rankings e comparações estatísticas – as equipas de investigação (do sector da educação) decidiram focalizar os seus estudos de caso na fabricação, circulação e uso do Progamme for International Student Assessment (PISA) da OCDE(2).

O PISA é um projecto internacional de avaliação comparada levado a cabo sob os auspícios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Foi oficialmente lançado nos anos de 1990 como resposta da agência à necessidade sentida pelos países membros de poderem regularmente disponibilizar dados fidedignos sobre os conhecimentos e competências dos alunos e sobre o desempenho dos seus sistemas educativos. O principal propósito do Programa é proporcionar “um ponto de referência estável que permita a monitorização da evolução dos sistemas educativos” (OECD, 2007, p. 17). Estrutura-se à volta de uma avaliação trienal e cada ciclo compreende um inquérito que inclui um módulo nuclear (obrigatório para todos os países participantes) que incide numa área da literacia (p. ex. literacia da leitura, da matemática, das ciências). Pretende responder à “necessidade que os países têm de retirarem ensinamentos para as políticas” (OECD, 2007, p. 1) e inclui práticas que geram conhecimentos específicos: “(…) representa um esforço colaborativo que junta os saberes científicos dos países participantes, com uma direcção conjunta dos governos, em função de interesses comuns nas políticas públicas” (OECD, 2007, p. 10). Em suma, o Programa tem uma orientação política aberta e desenvolve-se numa relação explícita de “política – conhecimento (especializado)”.

Para lá destes atributos, há outras razões que justificam esta “selecção de caso”: os aspectos que distinguem o PISA de outros programas, tais como a sua regularidade e flexibilidade na aplicação e a singularidade do próprio objecto – as competências de literacia (ver Bottani, 2006); o contínuo aumento do número dos países participantes (32 no PISA 2000, 41 no PISA 2003, 57 no PISA 2006 e um total de 67 países que se espera que participem no quarto ciclo, 37 dos quais não são países da OCDE); o interesse crescente e diversificado da investigação no Programa, passando pela aceitação até à crítica(3). Todavia, o que levou à sua escolha foi principalmente a percepção das equipas sobre a presença conspícua do PISA na acção pública – embora não idêntica nas suas manifestações. Assim, o interesse do nosso trabalho reside na ideia de acompanhar (e de entender) os movimentos e mudanças do PISA: é fabricado a nível supranacional juntando indivíduos e organizações de diferentes espaços sociais; muitas vezes toca a acção pública nacional; suscita o interesse de diferentes grupos sociais; contudo, é de forma diferente que com ele se relacionam e o usam – modificando-o até.

Artigo Completo: download

LUÍS MIGUEL CARVALHO

Fonte: Revista Sísifo

Relatório da OCDE regista melhorias na educação em Portugal

Fonte: ME

A Organização para a Cooperação e para o Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgou a edição de 2009 da publicação Education at a Glance, na qual confirma a existência de mais alunos e de melhores resultados escolares em Portugal no ano lectivo de 2006/2007, período de referência do relatório.

Quanto ao número de alunos matriculados no sistema de ensino, registou-se um crescimento em Portugal. A percentagem de alunos entre os 15-19 anos inscritos na escola atingiu os 77 por cento, mais 4 pontos percentuais do que em 2004/2005, a comparar com a média da OCDE, que se situa nos 82 por cento. Assim, a distância de Portugal para a média dos países da OCDE passou dos 8 pontos percentuais, em 2004/2005, para 5 pontos percentuais em 2006/2007.

Relativamente à taxa líquida de transição no ensino secundário, é de salientar que atingiu 65 por cento, mais 14 pontos percentuais do que em 2004/2005 (51 por cento), iniciando a aproximação à média observada para os países da OCDE (82 por cento). Portugal reduziu, no espaço de dois anos, 12 pontos percentuais na distância que o separa dos países da OCDE.

Já a percentagem da população portuguesa entre os 25 e os 34 anos que concluiu pelo menos o ensino secundário atingiu os 44 por cento, contrastando com os 29 por cento observados no início da década. Para aproximar Portugal dos países da OCDE, nos quais esta percentagem se situa em média nos 79 por cento, revelam-se importantes as medidas de política adoptadas, como o alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos e o reforço do apoio às famílias na educação dos filhos.

No que respeita ao item do investimento na educação, a despesa pública portuguesa em educação como percentagem do PIB foi de 3,7 por cento, valor superior à média observada nos países da OCDE (3,5 por cento). A percentagem da despesa corrente atingiu 98,1 por cento, enquanto nos países da OCDE a média se situou nos 92 por cento. Em Portugal, cerca de 80 por cento das despesas correntes respeitavam a salários, sendo de salientar que no topo da carreira os professores portugueses continuam a ser dos mais bem remunerados da União Europeia e da OCDE.

Quanto ao número de horas de instrução por ano durante a escolaridade obrigatória, no período abrangido pelo estudo, em Portugal os alunos com 15 anos tinham em média por ano 821 horas de instrução, enquanto a média dos países da OCDE era de 921 horas. Na faixa etária dos 12 aos 14 anos, a média em Portugal atingiu 880 horas de instrução, situando-se a média dos países da OCDE nas 892 horas. A relação altera-se no 1.º ciclo do ensino básico, no qual em Portugal a média de horas de instrução por ano, para os alunos com 7 e 8 anos, foi de 855, mais 86 horas, em média, do que nos países da OCDE (769 horas).

Em Portugal, país onde as turmas eram em média mais pequenas em todos os ciclos do ensino básico, nos 1.º e 2.º ciclos o número de alunos por turma era de 19,7, enquanto nos países da OCDE a média era de 21,4. No 3.º ciclo do ensino básico as turmas portuguesas tinham 22,3 alunos, enquanto os restantes países da OCDE registam em média 23,9 alunos por turma.

Em Portugal, existia um maior número de professores por aluno. Nos 1.º e 2.º ciclos, o número de alunos por professor era de 11,8, contrastando com os 16 alunos por professor nos países da OCDE. No 3.º ciclo, a relação era de 7,9 alunos por professor, enquanto nos países da OCDE a média se situava nos 13,2 alunos por professor. No ensino secundário, Portugal apresentava um rácio de 8,4 alunos por professor, comparativamente com os países da OCDE em que esta relação era de 12,5 alunos por professor.

Para mais informações, consultar:

OCDE

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