
Retomei a leitura de “A Crise da Narração” de Byung-Chul Han. Na verdade, é uma segunda leitura, tamanha é a densidade da obra que a cada revisão nos abre tantas outras janelas de interpretação e de análise sobre a ação política e social, como sobre a nossa ação individual. O livro é um ensaio filosófico que diagnostica um dos principais problemas da sociedade contemporânea: a perda da capacidade de contar e de ouvir histórias. Para Han, esta crise vai muito além da literatura ou do cinema. É uma crise existencial que ameaça a nossa identidade e a nossa capacidade de dar sentido à vida.
A obra apresenta, sobretudo, dois principais argumentos que sustentam essa crise. O primeiro argumento coloca-nos perante a luta entre a informação e a narração. Byung-Chul Han estabelece uma distinção fundamental entre estes dois campos. A informação é fugaz, fragmentada e orientada para o presente. O seu valor reside na sua novidade, mas ela esgota-se quando é consumida. Um título de jornal, uma notificação push ou um tweet, ou um post em outras redes sociais, são exemplos de informação. Eles são aditivos. Acumulam-se sem criar ligações significativas. A nossa sociedade, saturada de informação, vive num estado de ruído constante que impede a reflexão.
Por outro lado, a narração apresenta-se como um processo lento e construtivo. Ela tece eventos e experiências numa estrutura coesa, transformando uma série de fragmentos numa história significativa. A narração não é sobre a novidade, mas sobre a continuidade e a experiência. Para Han, a narração é o que permite que uma vida seja vista como um todo, com um sentido, e não apenas uma sequência de acontecimentos aleatórios. Nesta ausência, Han afirma que a nossa sociedade se tornou obcecada com a produção e o consumo de informação, sacrificando a capacidade de construir narrativas.
Um segundo argumento que justifica a crise da narração tem de ser com o storytelling como apatia da narrativa. De facto, um dos pontos mais críticos do livro é a distinção entre a narração autêntica e o que Han chama de storytelling. Para o autor, o storytelling, não é uma forma de arte, mas uma técnica de marketing e manipulação. É a narrativa a serviço do capitalismo e diria eu, dos egos insuflados, e o argumento hipócrita para secundarizar a ética na ação humana e o bem comum. O storytelling é superficial, otimizado para o consumo e projetado para vender um produto, uma ideologia ou uma imagem pessoal (especialmente nas redes sociais). Ele carece da profundidade, da complexidade e da negatividade (o mistério, a falha, a tragédia) que são essenciais para uma verdadeira história. O storytelling é positivo, higienizado e previsível, buscando apenas a aprovação e a performance. É uma máscara que a longo prazo desgasta relações e impede a assunção de espaços e vivências democráticas. Dir-se-á que o storytelling é a capa perfeita do psicopata social, do mentiroso compulsivo, e do indivíduo que no reverso do sorriso e do post social, é vazio, triste e diria um colega, é mal-amado.
Mas o que se apresenta, então, como fatores da vida moderna que esmagam a capacidade de narrar em detrimento do devaneio fácil, das fake news, enfim, do storytelling? Han aponta três fatores da vida moderna que poderão ajudar a pensar sobre a crise da narração. O primeiro fator tem que ver com a sociedade do desempenho. Han afirma que a nossa cultura do desempenho e da otimização constante não tem tempo para a lentidão e a pausa que a narração exige. A vida torna-se um projeto a ser maximizado, e não uma história a ser contada. Não há espaço nem tempo para a vida contemplativa. E como aproximar-me do “outro” se não me permito ter tempo para o contemplar? Para o escutar? Tal é o medo que a sua sombra me poderá provocar; como se não fosse dessa relação dialógica, que me complementa, que me poderia tornar um “ser mais”, tal como nos apresenta Paulo Freire nas suas diversas obras.
O segundo fator tem que ver com o mundo digital e a fragmentação. As plataformas digitais promovem uma existência fragmentada, onde a vida é reduzida a uma série de momentos desconectados. O post, a selfie e o like substituem o enredo e a reflexão. A nossa experiência não é acumulada, mas sim dissipada numa torrente interminável de atualizações, onde a ignorância se alimenta.
O terceiro e último fator está associado à tirania da transparência. Na sociedade da transparência, onde tudo deve ser visível e instantaneamente compreendido, não há espaço para o segredo, a falha ou o mistério. No entanto, a verdadeira narração depende da tensão entre o que é revelado e o que é oculto, entre a luz e a sombra. A transparência elimina esta tensão e achata ou aplana a experiência humana.
Para Han, esta perda da capacidade de narrar tem consequências devastadoras. Por um lado, incorremos no risco da erosão da identidade. A nossa identidade individual é construída pela nossa história pessoal. Se a nossa vida se torna uma série de fragmentos sem conexão, o nosso sentido de identidade desintegra-se. Abrimos espaços ao populismo. Por outro lado, possibilitamos a dissolução da comunidade, entendido como um conjunto de pessoas unidas por histórias e mitos comuns. Sem uma narrativa partilhada, coconstruída, a sociedade fragmenta-se em indivíduos isolados e desconectados. Por fim, outra das consequências da crise da narração está associada à perda de sentido. A vida sem uma narrativa é uma vida sem sentido. Sem a capacidade de conectar o passado, o presente e o futuro, a existência torna-se uma mera sequência de eventos sem propósito; vazios oniricamente preenchidos que dão sentido ao mentiroso e ao corrupto que também dele se alimenta e com quem compactua.
O ensaio de Han é, claramente, uma profunda crítica à nossa obsessão pela velocidade, pelo desempenho e pela informação. Byung-Chul Han alerta que, ao perdermos a capacidade de contar e de ouvir histórias, estamos a perder a nossa própria humanidade. E não é este o sentido único da vida? Cuidar, porque juntos somos mais!?